O dia em que virei sapo

Caiçuma

Fora o ayuascar (ou une) servido nos rituais, a medicina indígena usa também o rapé e o kambô. Perguntei a várias pessoas sobre os benefícios e suas experiências com essas substancias mas o rapé não me convenceu muito… Supostamente ele faz uma limpeza das vias respiratórias e também auxilia em terapias e tratamentos feitos por psicólogos com veias bem mais alternativas. Mas achei seu uso meio banalizado por aqui. Qualquer um, a qualquer momento, em qualquer lugar lança mão do rapé, como se fosse mais um programa social do que uma medicina. Convida-se os amigos ou se auto aplica usando chifres trabalhados e enfeitados como “canudos”. Sei lá, soprar uma mistura de tabaco com pó de casca de árvore e ervas no meu nariz sem uma razão forte… Não me convenceu.

Já o kambô funciona como uma vacina que da uma super turbinada no sistema imunológico, fazendo com que nosso corpo combata uma serie de doenças, inclusive pré-existentes. Conversando com algumas pessoas antes de vir pra cá ouvi relato até de cura de miomas!

No caso do kambô, são poucas as pessoas autorizadas a fazer porque o processo é um pouco mais complicado: começa às 4 da manhã com a captura do sapo na floresta e consiste na aplicação do veneno do sapo sobre uma pequena superfície da pele. Quem já fez disse que é um processo beeem forte: seu coração dispara, o rosto, garganta e gânglios incham, você tem febre… As pessoas que me relataram experiências com kambô disseram que você acha que vai morrer. “Mas depois de uma meia hora passa e você se sente muito forte.” Só que meia hora com a sensação de que vai morrer deve ser uma eternidade!

O despertador tocou 4:30. Passei na barraca do Rodrigo e fomos andando pra casa do Nainauá. Parece brincadeira, mas no caminho iluminado pela lanterna, de repente, surge um sapo e ele para bem na nossa frente. “Caraca! Só pode ser um sinal! Rsrs Estamos no caminho certo.”

Abdul já estava lá nos esperando e Nainauá conduziu a gente para os fundos da casa. Sentamos nuns troncos de madeira que tinham jogados no chão ao lado do galinheiro. Na nossa frente, também no chão, estava a panela com o caiçuma, uma bebida feita à base de mandioca, que a gente precisa tomar (em jejum, claro), antes de receber a “vacina”. No seu preparo as índias mastigam a raiz para que ela fermente com a saliva da boca e, depois, cospem na panela para que seja cozida (pelo menos ela é cozida!). Nainauá disse para tomarmos o máximo possível, até sentirmos a barriga cheia. A ideia é encher a barriga pra vomitar mesmo e provocar uma limpeza do aparelho digestivo. Tentei abstrair, mas não foi nada fácil tomar 3 canecas daquela bebida lembrando de como ela é feita. Ah! Piriri também era uma possibilidade concreta e já perguntei ao Nainauá pra que moita eu deveria correr se fosse esse o caso.

Senhoras e senhores: o sapo
Senhoras e senhores: o sapo

Enquanto tomávamos nosso “drink” ele nos mostrou o sapo, vivinho da silva, em cima de uma tábua com a perna amarrada para não fugir. Mas o danado toda hora tentava escapar e ficava pendurado pela perna de cabeça pra baixo.

“Nainauá, o sapo tá lá pendurado de novo…”
Nainauá pegava o sapo com a mão mesmo, e colocava de volta no lugar.
“Esse sapo de voces é danado, viu?”

Ele nos contou que eles começam a dar cambo para as crianças por volta dos 3 anos, quando elas começam a ficar barrigudas e amarelas… Como se fosse uma etapa normal da infância.

A Lara e o Hugo, já mais experientes no kambô, tinham feito na véspera, 3 pontos cada um, e disseram para eu fazer só 2 já que era minha primeira vez. O Rodrigo decidiu fazer 3 e o Abdul pediu 5 (!), como fazem os mais experientes, apesar de ser sua 1a vez também. 

“Quando sentirem que a barriga tá cheia me avisem que a gente começa.”
Abdul foi o 1o: “I’m ready”

Nainauá acendeu um palito de palha e, com a brasa, queimou os 5 pontos no braço dele.  A sangue frio mesmo.
“Ai, shhhh, ouuu, hummm!”

Cambô
Cambô

Depois de queimados os pontos ele retira a pele morta, raspa o veneno da barriga do sapo com uma espátula de madeira e aplica sobre a pele. É coisa de 5 minutos pra você começar a sentir os efeitos. No meu caso (=mulher) a aplicação é na perna, como manda a tradição.

Olhei no relógio pra não perder a noção do tempo: eram 5:23 da manhã. Depois de 5 minutos… “Tá sentindo alguma coisa?”

“Ainda não”
10 min: “e agora?”
“Nada…”
20 min: “não tá sentindo nada mesmo?!”
“Nadinha…”
“Nossa, ela é forte, viu?” disse o índio pros meninos.

Ele aplicou mais um pouco do veneno mas não adiantou. Então decidiu cortar o efeito jogando água, raspou mais um pouco da pele e colocou o veneno pela 3a vez.

“Agora eu tô sentindo arder tudo do joelho pra baixo…”
Logo depois senti um calor no rosto, como se estivesse, com o rosto na porta do forno.

Senti meu rosto começar a inchar e disseram que eu tava ficando vermelha. Levantei e me sentei de costas pra eles no vomitódromo. Começou a vir aquele enjoo e o suadouro típico que acompanha. Me concentrei pra não travar e deixar a limpeza acontecer.

Missão cumprida! Rsrs

O inchaço do rosto começou a melhorar (mas 100% mesmo só umas 12h depois) e meus sintomas pararam por aí. Nada de taquicardia ou nada nem perto de achar que ia morrer.

Fiquei com vontade de experimentar uma 2a vez com mais pontos para ver, mas decidi deixar pra próxima.

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