Lá vem a noiva

Cultura Yawanawá

Estava na minha caminhada rumo ao café da manhã e cruzo com o pajé, vindo na direção oposta. Ele e seu cajado.

“Bom dia vovô Yawa” (ele tem 100 anos!)
“Bom dia, bom dia…” Me olhou… “Casada ou solteira?”
“Solteira” (já rindo)
“Ahhhhh” ele abriu um sorriso, os braços e me deu um abraço. “Você vai hoje à noite…?” (no ritual)
“Vou, claro!”
Hahaha, só rindo mesmo…

Chegando na cantina pra tomar café e pegar o mosquiteiro que o Rodrigo deixou de herança pra mim, a Euzilene, que serve o nosso café, me perguntou: “Onde o Rodrigo mora?”
Respondi que em São Paulo.
“E você pode levar um recado meu pra ele, pode?”

Disse que sim, claro, e perguntei se ela queria me dizer qual era o recado ou se queria que eu levasse um bilhete. Ela respondeu que queria escrever um bilhete…
“Mas você escreve pra mim? É que eu não sei escrever…”

Lá fui eu, na minha “missão Central do Brasil”. E o curioso é que a historia se desenrola igualzinha ao filme: a gente precisa realmente ajudar a escrever, a acertar o tom, para que eles redijam da1a para a 2a pessoa. Se não é na base do “eu queria dizer pra ele…”

A tarde foi a cerimônia dos casamentos. Fora os 6 casais de noivos (não índios!) que tinham planejado se casar aqui numa cerimonia Yawanawa, fiquei impressionada com a quantidade de gente que vem acampar numa tribo indígena na floresta amazônica e traz esmalte, maquiagem e roupa arrumada. Fala sério! “Eu só trouxe biquini, legging e moleton!” Desabafei com a Lara.

“Quer usar essa minha saia? Vai ficar linda em você!”
Deal! Coloquei minha pena de gavião real, hehe, e ficou show! 

E tenho que dizer que a cerimônia que o cacique e o pajé fizeram foi bem bonita. Numa linguagem bem simples, sem entrar no mérito religioso, chamaram a atenção pra importância da família como um todo, do respeito aos mais velhos e ressaltaram a importância da mulher na sociedade (inclusive é ela quem entrega a noiva ao noivo!). Muito mais legal do que muito casamento que temos por aí.

Mas o barato também é o espirito de comunidade que se forma quando você coloca todo mundo pra passar perrengue junto na floresta. De repente você conhece alguém num dia, à tarde tá tomando banho ou lavando roupa junto no rio, no dia seguinte pegando papel higiênico emprestado, jogando conversa fora na “casa” de um, do outro, eventualmente dando uma força com um enjoo ou dor de barriga… Forma-se um espirito de comunidade instantâneo e a intimidade surge numa velocidade ímpar! Pode ir almoçar a qualquer hora que vai sempre encontrar alguém conhecido e interessante pra bater papo nos mesões coletivos. E sai cada historia bacana…! Que da vontade de viajar muito mais, explorar muito mais, ousar muito mais!   

Ah! Consegui comprar meu cocar!! A feirinha rolou em frente à casa do cacique, com direito a produtos expostos arrumadinhos em cima de mesinhas ou na grama. Não consegui trocar as cangas ou o vestido que eu trouxe por nada.. Eles querem mesmo são as barracas, as redes ou eletrônicos, então dei pra Lara de presente mesmo (minha companheira de van / canoa, vizinha na floresta e atual melhor amiga!). O cocar não é tão grande quanto eu tinha imaginado (esses eram muito caros), mas é mega colorido e vai ficar lindo na parede lá de casa!

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Jan
Jan
Agosto 7, 2019 1:34 am

O site é maravilhoso!

Maria Luiza Sulzbach
Maria Luiza Sulzbach
Novembro 17, 2019 3:54 pm

Paola, amei o site!♥️ Sou sua fã número 1.

Ana Lucia Coelho
Ana Lucia Coelho
Novembro 19, 2019 10:01 pm

Maravilhoso, parabéns! Cada vez que entro vejo mais um pouco. Adorei

Zdenka
Zdenka
Novembro 20, 2019 9:12 pm

Díky fotografiím a textu jsem se dostala do míst o kterých jsem četla v dětství – Julius Verne – Děti kapitána Granta. Zde pracovala má fantazie.
A tady vidím krajinu skutečnou. Touto krajinou kráčel náš syn s Paolou. Jejich zážitky jsme měli možnost průběžně sledovat.
A podívala jsem se také kde už všude Paola byla. Když to tak sleduji – manžel byl na cestě kolem světa, syn si cestu kolem světa taky uskutečnil. Na ní se setkal s Paolou. A nyní i ve světě zůstává. Moc jim přeji jejich touhu poznávat různé kouty Země.

Sonia Soneghet
Sonia Soneghet
Maio 28, 2020 3:50 pm

Que olhar poético!
O relato ganha mais cor!