Vale da Lua é muito mais do que uma câmera pode retratar

O programa do fim do dia é ver o pôr do sol do Valle de la Luna e decidimos começar por um mirante que se acessa por uma duna. Logo no começo tinha um paredão e percebi que tinha um menino sozinho, bem pequeno (com não mais do que 6 anos), descalço e… a uns 4 metros do chão!  Ele tava escalando o paredão (totalmente vertical) e ponderei que, obviamente, se chegou tão alto é porque tinha alguma experiência prévia. Mas era muito pequeno!  E estava nitidamente empacado, tentando continuar a subida mas escorregando porque as pedras estavam muito, muito soltas. “Cadê os pais dessa criança, gente!” Não tinha nenhum ser humano por perto. Ele não olhava pra baixo e parecia determinado a continuar a subida. Uns 2 metros mais acima ele chegaria a um platô e eu hesitei em desestimula-lo a alcançar seu objetivo. Mas ele era uma criança e estava correndo um risco enorme de despencar e sofrer um acidente seríssimo (se saísse vivo)!  Comecei a conversar com ele em inglês num tom amigável e perguntei se estava bem, mas ele não respondeu. Decidi assumir o comando e comecei a orientá-lo a descer fazendo um zigue zague: “Try to come down slowly!” Ele visivelmente mudou sua intenção e parecia procurar um jeito de descer, mas escorregou um pouco. Que angústia! Me aproximei do paredão, ficando bem embaixo dele. Sabia que seria impossível segurá-lo numa queda daquela altura, e que me quebraria junto com ele, mas achei que vê-lo se estatelar na minha frente seria pior. Muita angústia… “Put your foot to the left! Good job! Now try to go to the right a little bit!” Ele ia me obedecendo e escorregando um pouquinho cada vez.  Me preparei para segurá-lo umas três vezes, enquanto desviava das pedras que caiam e quando estava numa altura que conseguíamos alcançá-lo, o Jan o pegou no colo. Ufa… Ele tinha uma das mãos fechadas, carregando pedrinhas… Elogiei e dei parabéns pela coragem dele, mas ele parecia tímido e não disse uma palavra. Saiu caminhando em direção a quem deduzi ser o pai que, nesse momento, apareceu caminhando na nossa direção uns 200 metros dali. 

O Valle de la Luna é daqueles lugares que uma câmera não consegue retratar.  Daqueles lugares que engolem a gente e nos fazem refletir sobre a origem de tudo… Seguimos, então, concluída a nossa segunda boa ação do dia, em direção ao céu rosa alaranjado do pôr do sol atacamenho.

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