Sobre saraus, caminhadas e rituais

No point da varanda do cacique

Fora as músicas típicas dos índios que rolam aqui e acolá, a qualquer momento e em qualquer lugar, tem uma galera que trouxe violão, tambor, pandeiro, flauta… Então rolam várias rodinhas como essa de agora, aqui na varanda do cacique: um chorinho es-pe-ta-cu-lar!!! E eu tô de short e camiseta, descalça, deitada na mureta da varanda escrevendo, depois do meu arroz, feijão, mandioca e porco do mato. Totalmente em casa! 

De manhã tinham dito que ia rolar uma caminhada pela  floresta pra conhecer as árvores sagradas, centenárias, supostamente às 8h. Terminei de tomar café com o Rodrigo, meu outro novo amigo e fotografo (hehe), e fomos até a casa do cacique pra sondar. “Oi, txai, você sabe se o passeio pra floresta já saiu?”

“Sei não…. Mas passou um povo andando pra lá.”
Andamos até a beira do rio Gregorio, por onde chegamos, e perguntamos de novo porque não havia nenhuma trilha aparente saindo dali.. 

“O passeio é lá pros lados da arena…” >> do ooooutro lado da aldeia, perto do do igarapé, onde estamos acampados. 
Atravessamos o “deserto do Saara” e seguimos perguntando. Encontramos o Laerte no caminho, que nos disse saber onde era. “Ah, não, mas caminhar com um bando de gente não tem a menor condição!” Disse ele no seu melhor estilo arredio. 

“Então, já que você conhece, vamos nós!” Tinham mais 2 meninas por perto que se animaram também e o Abdul, somali que trabalha na marinha americana (e foi pro Afeganistão!!), todo engraçado e enturmado também. Fizemos nosso petit comité e partimos. Contra as regras do festival, que pede para não sairmos desacompanhados dos índios pela floresta. Ai sim! Rs

Samauma, a maior árvore da Amazônia
Samauma, a maior árvore da Amazônia

Laerte é  maratonista, mega acelerado e já tinha explorado um pouco aqueles caminhos na véspera. Engatou a 5a e puxou a turma mata adentro num ritmo que eu mesma tive que me concentrar pra acompanhar. Entramos 3km mata adentro, segundo o GPS do Laerte , passando pela Samauma, árvore sagrada, considerada a rainha da floresta que os índios acreditam ter alma e poderes de realizar desejos (só que vou ter que voltar lá porque só descobri isso depois, hehe). Tinha um “quê” de Pedra da Gávea (logicamente, com bem menos subidas). Uma das meninas começou a ficar com medo e já tinha pedido para voltarmos umas 3 vezes, mas o Laerte, mega empolgado, sempre puxava mais um pouco querendo desbravar aqueles novos caminhos. Mas valeu a insistência dele: demos uma baita volta e, no final, caímos de volta na aldeia! Não exatamente no ponto que partimos, mas sim no ponto de onde o grupo “oficial” da caminhada aguardava pra começar! Hahaha “todo mundo pronto?”

Todo dia rola um ritual sagrado deles na arena à noite, uma estrutura redonda de madeira e sapê, piso de terra, toda aberta dos lados, com 2 andares de bancos (tipo tábuas de madeira) que acompanham sua estrutura circular. Vem o cacique, o pajé, a comunidade de modo geral e os curiosos como nós. Algum ancião da aldeia faz a abertura com discursos que buscam passar ensinamentos às próximas gerações. Na sequência forma-se a fila para tomar o Une (ou ayuascar como é mais conhecido).

Cultura Yawanawá
Cultura Yawanawá

Dei uma boa pesquisada antes de vir e conversei com várias pessoas… Só que deletei as explicações do ipad sem querer…  Mas, em resumo, é uma bebida feita de 2 plantas amazônicas, a partir de uma receita milenar e só os mestres podem prepará-la. Sua utilidade transita entre as propriedades medicinais e os contextos místicos, ritualísticos. Seu uso é levado super a serio e os organismos de saúde nacionais e internacionais consideram legal e legítimo o seu uso.

Mas quando o pajé estava abençoando a bebida antes de servi-la, naquele silêncio, ouvimos o barulho de uma pancada seca: tum!! Com algumas “manifestações” dos participantes na sequência: Simplesmente caiu um rato de uma das vigas de sustentação da estrutura. Bem no meio daquela oca. Hahaha Surreal!! As pessoas até que se contiveram, mas todos levantavam as pernas e os que estavam no chão se levantaram. Era um filhote, tadinho, mais assustado que a gente! Um dos índios se levantou e foi cuidadosamente conduzindo o ratinho pra fora.

Formamos a fila e bebemos. Só uns 2 dedinhos num copo coletivo. A Lara tinha me dito que era muito ruim e me deu um tic tac pra disfarçar o gosto ruim depois. Tomei o “shot” de uma vez só, mas sabe que não achei tão ruim assim??

Sentei pra esperar a bebida fazer efeito. Dentre os depoimentos que eu colhi haviam relatos de enjoo, vomito, dor de barriga, piriri (tudo considerado uma limpeza necessária), e também alucinações de diversos tipos. Ou melhor, aparentemente o ayuascar não é bem alucinógeno mas sim um expansor de consciência, que deixa, entre outras coisas, seus 5 sentidos extremamente sensíveis e apurados. 

Esperei 20, 30, 40 minutos. Pra não dizer que não senti nada, parecia que eu tinha comido algo um pouco mais pesado. No 2o dia essa sensação veio acompanhada de uma certa tristeza (limpeza?), mas nada grave, ombro amigo não faltou.

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